• Rosimeire B Wancelotti

Joana e a fada madrinha – uma história de complexo de exclusão e de filho preterido


Joana tem 6 anos de idade e sempre invejou a irmã mais velha. Parecia que tudo a irmã podia, que tudo ela sabia, que a irmã era a tal. Sentia-se tantas vezes inferior à mais velha que certa noite fez um pedido à uma fada madrinha. Queria ser a irmã mais velha. - Chega de ouvir coisas como “você ainda é muito pequena”, “você não sabe”, “só sua irmã que pode”, “você fica aqui com a mamãe”! - Como fazem as crianças, a menina tinha a fantasia de que poderia mudar as coisas. Durante o sono Joana teve um sonho no qual fazia seu pedido tão especial a uma linda fada com seu vestido azul brilhante. A fada tão generosa então lhe respondeu:

- Querida Joana, terei todo prazer em atender o seu pedido, mas você precisa primeiro saber que sua vida não será exatamente como você imagina... - Claro que será! Certamente será melhor do que não poder fazer nada do que quero e ver aquela metida da minha irmã conseguir tudo que deseja. Sabia que até um carro ela vai ganhar antes de mim? Ouvi o papai dizendo que quando ela fizer 18 ele irá lhe dar um carro. Eu também quero e não quero esperar! Já decidi, fadinha, quero nascer de novo e ser a primeira! - Você tem razão. Há inúmeras vantagens em ser a irmã mais velha, mas também existem outras coisas que você deve saber antes de tudo. Você viverá por algum tempo como a única filha, primeira neta, primeira sobrinha, terá todos os olhares voltados para você quando fizer suas gracinhas de criança e tiver suas conquistas, como seus primeiros passinhos. Contudo, um belo dia chegará em que seus pais irão lhe dar a notícia de que você ganhará um irmãozinho. A partir de então, tudo irá mudar em sua vida. Aquela exclusividade, aquela prioridade já não farão mais parte do seu universo, pois você ouvirá uma infinidade de vezes frases do tipo “deixa seu irmãozinho primeiro que ele é menorzinho”, “dá pra ele que ele é pequeno”, “deixa ele ir primeiro que ele é pequeno”. E você estará num mundo cheio de situações em que você terá que aprender a ceder. Você também passará a ter responsabilidades muito cedo, pois ouvirá muitas vezes a frase “olha seu irmão!”, e se algo acontecer ao seu irmãozinho, esteja certa de que você terá grande chance de ser culpabilizada com frases do tipo “você não tá vendo?”. E mesmo que não digam nada, você poderá se sentir culpada se ele se machucar. A duplinha que você fará com a mamãe irá acabar, pois o pequeno ser recém-chegado irá exigir cuidados e você já estará com mais idade e com maiores condições de se cuidar, pois é esperado que os mais velhos tenham melhores habilidades que os mais novinhos. Só que você ainda se sentirá tão criança que ficará confusa para compreender que deverá abdicar de tantas coisas. Você que se sentirá a garotinha do papai por um tempo, terá que dividir atenção com o pequeno e deixará de se sentir aquela estrelinha que brilha e todos olham para você. O mundo deixará de girar em torno do seu umbigo, como você estava acostumada. Os custos também aumentam com a chegada de mais um membro da família, então talvez naquela festinha caipira da escolinha onde você ia dançar de noivinha com seu amiguinho você só consiga dançar de caipirinha mesmo. - Ah mas peraí! Não foi assim que eu pensei que seria... - Ah Joana, mas isso nem é tudo... - Tem mais? - Sim, sim! Afinal, muitas de nossas vivências na infância tem consequências na nossa vida adulta. Suas experiências de hoje como filha mais nova também podem levar a uma maneira de conduzir a vida ou encarar os eventos no futuro. O fato é que não passamos por essa vida como a sombra passa pela água, sem se molhar. Toda ação tem uma reação. - Mas eu aposto que a vida adulta de uma filha mais velha deve ser grandiosa. Vou aprender tudo antes dos meus irmãos. E ainda serei filha única por um tempo. Uhul!! - Sim, você disse bem. Por um tempo... O filho mais velho tem mais responsabilidades e os outros colocam mais expectativas sobre ele. Você por ser mais velha terá que dar exemplo o tempo todo. Será cobrada para cuidar do mais novo, e às vezes até dos mais novos, mas ao fazê-lo pode ser que ele não goste e não aceite, achando que você está querendo dar uma de mãe. - Ah mas isso é confuso... - Verdade. Tanto que às vezes você terá ódio daquele que você sentirá que veio roubar o olhar dos seus pais sobre você, o seu lugar, o amor deles, e que ainda tem que cuidar. - Não é pra menos! Será que é isso que minha irmã sente por mim? Ela me odeia? - Às vezes sim, mas ela também deve sentir um amor imenso, o mesmo que você sentirá pelo irmão mais novo que você virá a ter se for a mais velha. O ciúme será muito normal, não se sinta culpada. Não é incomum as crianças cujas mães estão grávidas ou com irmãos recém-nascidos terem expressões do desejo de machucar o bebê. Com o tempo isto melhora. Mais facilmente ainda se os pais tem mais jeito para lidar com as situações delicadas que surgem. Bom, como eu estava te dizendo, as coisas reverberam no futuro. - Como assim? - Você como filha mais velha viverá essas coisas que mencionei, muitas vezes contraditórias, com muita intensidade. Algumas pessoas conseguem passar por isso com um pouco mais de facilidade, porém, todas, sem exceção, sofrem com a chegada de um irmão mais novo. Para muitas essa é uma experiência até traumática e que pode ser revivida na idade adulta. Veja um exemplo: uma moça estava na praia jogando frescobol com o marido, mais tarde ela se afasta para dar um passeio na cidade. Quando retorna, vê o marido jogando com um rapaz e percebe que o estranho está com sua raquete. No mesmo instante a moça se sentiu jogada no túnel do tempo e começou a ter os seguintes pensamentos: “como assim ele está jogando sem mim?”, “ele deu minha raquete a um estranho!”, “éramos um par e agora ele joga com esse daí?!”, “ele joga melhor com ele do que comigo...”, “nunca mais vou jogar. Acabou pra mim. Estou com muita raiva deles e de todo mundo”, “ele está se divertindo sem mim...”, “aposto que agora gosta mais de jogar com ele do que comigo.”, “estou aqui só olhando e ele nem liga pra mim.”, “ele me esqueceu.”, “perdi a minha exclusividade. Antes era só comigo”. Todos esses pensamentos Joana, na verdade, não eram da moça, mas sim, da menina que morava dentro dela. A menina que ela foi e que aos 6 anos de idade teve um novo irmãozinho, gerando mudanças em sua vida. Veja como eram pensamentos infantis. Não digo “infantis” como uma crítica pejorativa aos pensamentos da moça, mas identificando que as ideias e sentimentos daquele momento só ficaram tão intensos porque trouxeram a avalanche da vivência do passado. - Nossa! Que complicado! E a moça reagiu como criança também ou só ficou pensando como menina? - Ih Joana, agiu sim! Sempre que situações dessas acontecem os adultos que revivem experiências passadas, seus complexos sabe, agem como quando tinham a idade do passado remoto onde nasceu o complexo. - Como eu poderei saber quando é uma coisa do passado que estará se repetindo no presente? - Se você observar que sua reação à situação presente é exagerada frente ao ocorrido no momento, pode acreditar que é porque a energia da vivência do passado pegou carona na situação do presente e fez com que você sentisse uma emoção tão intensa. - Poxa, que interessante! Nunca imaginei que minha chegada pudesse ter gerado alguma coisa à minha irmã. Achei que a braveza dela em alguns momentos comigo fosse só porque ela é chata e metida. Então causei tudo isso que você está falando à minha irmã? - Veja, a vivência com ela também está deixando marcas em você, tanto que você quis mudar sua vida e nascer de novo, não foi? - É mesmo. Eu achava que a vida dela fosse maravilhosa. Só agora entendo... - Joana, todos dentro do sistema familiar arcam com certos custos pela posição que ocupam, mas é muito importante e saudável que cada um ocupe de fato o seu próprio lugar e o aceitem com amor, deixando de brigar para ser o que não são. O amor e o ódio andam muito próximos. Precisamos aprender a lidar com os dois... - Poxa, parece então que pode ser uma boa ser o filho do meio então?! - Da mesma maneira, ser filho do meio tem seus aspectos positivos e negativos. Quer saber de algum? Pode não se sentir muito visto pelos pais. O que, de novo, tem seus aspectos positivos e negativos. - Ah então não tem jeito. Já sei! Que tal ser filha única? - Então lá vamos nós de novo, Joana. Tem seus privilégios sim, porém, não ter irmãos tem seus pontos negativos. Não é regra, claro, mas de uma maneira geral ter irmãos proporciona o aprendizado do compartilhar, do respeito, da amizade, e justamente da não exclusividade, que é a situação que ocupamos quase o tempo todo no mundo. O mundo não é só nosso, concorda Joana? Temos muitos “irmãos” com quem dividimos tudo. Infelizmente muitos não aprenderam direito esta lição. - Ai fadinha, acho que vou ficar como estou mesmo. Olhando agora eu acho que até que tô bem... - Você é uma garota esperta. O melhor lugar, Joana, é aquele em que Deus nos colocou. Aprenda a aproveitar tudo que a vida te oferece. Quem só reclama não enxerga o encanto do que já possui. E a garota acordou com o coração cheio de amor e correu dar um beijo e um abraço bem apertado em sua irmã mais velha...

0 visualização

© 2019 - Rosimeire Balog Wancelotti - Psicóloga - CRP-SP: 06/81722

  • Facebook
  • YouTube
  • Instagram ícone social